Fotografia: Milena Martins Moura

há uma arte
sacra em
cravar dentes
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀unhas

uma arte de estátua barroca altar
banhado a ouro

comer com calma as
migalhas sob
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀as unhas

indizível canibalismo

⠀⠀⠀⠀⠀ mastigar o que sobra da
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀carne
⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀nas pontas dos
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀dedos

e com crudelíssimo requinte
me abrir a gume
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀a face oculta

sou corpo-carne em exultante adoração
me oferecendo em sacrifício
⠀⠀⠀ ⠀na nudez eucarística dos
⠀⠀⠀ ⠀condenados

meus côncavos de treva
e sangue
eternamente na fome da luz

e no princípio era um
verbo
⠀⠀⠀ impenetrável
⠀⠀⠀ de morte e gozo

a paixão erguendo os cálices da sexta
lavando com cuidado as mãos na
⠀⠀⠀⠀fonte

metade fome metade
saciada
clamo
ao céu
desabitado
dos deuses em silêncio

eis-me aqui
imola para o banquete
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀faz da Minha carne
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀o Teu instrumento

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Arte: Milena Martins Moura

aguardo
com as palmas rubras
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀de roçar o fogo
e o Verbo atado atrás dos dentes

o frio há de chegar
com unhas roxas

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e eu vou continuar roçando o fogo

antecipo despensa e veludo
as cheias do nilo
e a engorda das vacas

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e eu vou continuar roçando o fogo

uma mulher que não se antecipa
é o oposto de uma cassandra em vigília
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀prevendo incêndios

por tudo isso eu sento aqui e raspo os dentes e os sentidos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀no fogo

não me foi dado conhecer a frieza das madonas

por tudo isso eu antecipo o ferro
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e forjo no fogo
as armaduras os escudos e as carniças

antecipo as alcunhas desonrosas
e o disfarce colérico dos medos

uma mulher com uma palavra a cuspir é a sarça no deserto
destilando pestes

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀uma mulher não se consome pelo fogo

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Arte: Milena Martins Moura

é assim
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀em carne frágil
que ora me habito

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀decepada sob os astros
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀em contrição e penitência

trago numa trouxa restos gastos
feito isca
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀sujos dos caminhos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e da barbárie dos homens bons

do seu sumo sobrevivo um pouco além do fim do fogo
e talvez por piedade
a morte
⠀⠀⠀ em calma
me mastigue

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀sob os astros

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀eu rasgo o grito sob os astros
as paredes da garganta um mero entrave
entre mim e o espanto

insisto em quase corpo e quase morte
alvejada à queima-roupa pelo medo
que põe demônios no escuro

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀sob os astros

⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀debato as sobras sob os astros
e me carrego entre os escombros
do que fui eu

para que os vivos me saibam viva
e eu não saia vencedora

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